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 Os gregos, de quem tudo nos chegou, bem sabiam que o homem é um conglomerado mole de forças contraditórias, tantas vezes instintivas, tantas vezes racionais. Porém, as duas primeiras, Eros, o desejo, e Hipnos, o sono, acabarão sempre por se dissolver numa última e absoluta, Tanatos, a morte. Ares, o deus da guerra e do triunfo, supremo desejo de dominação, ele mesmo só pode triunfar através da morte. Não houve em toda a história do homem civilização que mais levasse ao extremo essa união entre o desejo, o sono e a morte do que a romana. E, no extremo desse extremo, estavam os próprios imperadores e, acima de todos, Tibério. Prestes a morrer, o violento Augusto, referindo-se ao seu genro Tibério que lhe iria suceder no Império, exclamou para os escravos que o rodeavam: "Desgraçado povo que vai cair em tão lentas mandíbulas.". E, no entanto, o monstruoso Tibério era ele mesmo um conglomerado de for ças contraditórias. Assistira aos assassinatos ordenados por Augusto na sua asc...

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 Regresso solitário ao meu passado porque é impossível regressar ao meu passado e, por isso, ninguém me pode acompanhar nesse regresso. Além disso, o meu passado é uma lenda triste, cheia de temor e de culpa de o ter, cheia de impulsos infantis e amores adultos que nunca tive porque eu nunca fui eu mesmo e ignorava que alguma vez poderia sê-lo, e ainda não sei se sou eu mesmo ou alguma dia serei porque sempre quis ser outro que não eu mesmo, e se fosse outro queria ser outro para além desse outro. A minha lenda recordo-a agora com cenas que podem ser substituídas por outras cenas, que podem ser cortadas e coladas como se faz nos filmes porque, como nos filmes, tudo na vida pode ser cortado e colado, porque o ângulo em que as cenas são vistas pode mudar a cada instante com o modo de ver e os sentimentos do autor e aquilo que não é modo de ver nem sentimentos e nem ele mesmo sabe o que é, porque tudo nele muda a cada instante e, no instante seguinte, ele já não ele. O que mais me dói...

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 O nacionalismo não é hoje mais do que roupa velha num homem que começa a surgir  como novo. Mais do que nunca, percebe-se agora que é uma mentira da história, construção dos poderes e não alma dos povos. A alma dos povos é a Pátria, a língua dos pais, mais ainda do que a terra dos pais. A terra dos homens é hoje todo o mundo. Por isso, quem ama os homens só pode ser homem de todo o mundo. Vejo-me tão patriota como internacionalista. Patriota porque, como dizia o mago da Rua dos Douradores, a minha Pátria é a língua portuguesa, com o seu mar e os seus montes e o cheiro de ambos, com o barro e o vinho que me correm no sangue, com os seus alimentos que em nenhuma outra parte do mundo têm este sabor porque se alimentam de nós, a Pátria portuguesa com as suas festas e a sua Páscoa que não é passagem entre dois mares mas permanência do amor terrestre que um mito celeste consagrou. Como acredito que não existe Deus e que Cristo foi um terno mestre secreto dum convento junto ao Mar M...

O NOVO LIVRO DO DESASSOSSEGO

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  Fechado em casa, aqui estou, peixe dentro do aquário para poder viver. Lá fora o ar é hostil, as bocas e as mãos são perigosas. Poderia ser um tempo de meditação, mas a angústia e o tédio sempre latentes levam-me à dispersão. Leio uma ou duas páginas dum romance, outras tantas de um qualquer filósofo cuja obra me venha à mão em primeiro lugar - Cioran aparece-me tantas vezes - consigo chegar à meia dúzia de páginas de poesia. Apenas a música, ao fundo, nunca me abandona. Olho pela ampla janela do meu quarto, e a avenida da Boavista vazia e com o mar ao longe torna mais frio o tempo. O vento faz tremer o arbusto que tenho plantado num grande vaso na varanda voltada para o sol, tronco alto descarnado e fino, sustentados em raízes sólidas como bolas de chumbo. Só tem folhas nas pontas dos ramos, dedos abertos para o céu sem esperança. Tudo parece frágil nesse arbusto, mas ele está ali há tantos anos que me parece ainda mais velho do que eu que o plantei. Ali ficará quando eu desapar...

O NOVO LIVRO DO DESASSOSSEGO

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Contento-me em ser pequeno porque sou grande. E o que é ser grande? É perceber a morte que há em tudo, em nós e no que nos é exterior, e no exterior do exterior, e dentro de tudo o que é interior e exterior, e dentro do que está dentro. Sou um pequeno camponês ao longe, breve como as árvores que por nós passam e nós sentimos que passamos por elas. Como ninguém, o camponês sabe que tudo é ilusão. Por isso assenta os pés na terra, a única realidade sólida a que se poderá agarrar porque ela o irá agarrar. A terra é a sua alma e a sua alma é a terra. E a sua alma está em todos os lugares da terra porque não pertence a lugar nenhum. Vejo-me, ao longe, de pé a contemplar-me criança no meu berço. Vejo-me ao entardecer quando soam as trindades. Mas as trindades não são as trindades porque embarquei num comboio que me levou para longe de mim mesmo, para muito longe. Ficou na gare a minha imagem inclinada frente a uma mulher também inclinada e que a natureza diz que me irá devorar. Fiquei eu sal...

NO CÉU A VIDA ETERNA CANSA

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Não há mais céu  Porque a vida eterna cansa E por isso não chega A ele a alma Labareda Que o mar engole E o sopro do tempo apaga. O céu é solitário sonho entre Medo e febre Oráculo de fumo Saindo das entranhas Reflexo dos teus olhos azuis Onde repousam as estrelas. O que há é a terra Com as suas dores E as suas colheitas A terra pequena com  Os seus bichos Os dias e os trabalhos A terra com as suas árvores De longas raízes Onde os homens extraem O seu sangue E onde não cantam anjos concordantes. HENRIQUE DÓRIA

O NOVO LIVRO DO DESASSOSSEGO

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 Sinto saudades da infância, não da que tive mas da que imagino que tive. Pensar o passado esquecido, rever o que se perdeu de vista, sentir felicidade onde ela não houve e alegria mesmo que a noite fechada no meu quarto não me permitisse ir ao baile e, se fosse, nenhuma mulher bonita aceitaria dançar comigo, não porque eu fosse feio mas porque tinha excesso de imaginação que é o contrário da ação e, para a mulher, o homem da sua imaginação é o homem de ação, e tudo isso não é mais do que a melancolia do que sou envolvendo o vazio de vida do que fui. Há um saxofone na minha vida que me deixa triste e feliz. Triste porque não fui aquele baile, feliz porque ouvi o saxofone, e ninguém de tantos que estiveram no baile o ouviu como eu. Havia luzes de querosene, e risos, e palmas, sussurros de ternura que escondiam o som do saxofone que eu tão bem escutava, porque na noite fechada os meus ouvidos abriam-se e eram do tamanho do mundo.