Mensagens

PRINCÍPIO DE UM LIVRO POR FAZER

Imagem
  - E apanhavas muitos pássaros com as armadilhas? - Muitos. Mesmo muitos. Melros, tentilhões, rouxinóis, até pardais. Os pardais eram os mais difíceis de apanhar. Muito espertos. Duvidavam de tudo. Até do bicho parado que ali estava tão fácil de comer. Preferiam os bichos vivos que tentavam fugir para os buracos. - E não sentias remorsos? - Sinto-os agora. Muitos. Por agora e pelos que não senti então. -Por  que não sentias remorsos matando pássaros tão pequenos, tão livres e tão lindos? - Porque adorava comê-los. Então, eu, o Natalino ou o Zé Pataco compartilhava-mos os pássaros que os nossos costelos tinham apanhado. Depenávamo-los, estripávamo-los, lavávamo-los e púnhamo-los a fritar. Púnhamos-lhe colorau para ficarem mais saborosos e mais bonitos. Era uma comunhão feliz com pássaros rosados que devorávamos com as nossas mãos besuntadas de gordura. As hóstias brancas que comíamos na igreja com solenidade triste, dadas pelas mãos limpas do padre Manuel, engolíamo-las  ...

PRINCÍPIO DE UM LIVRO POR FAZER

Imagem
 Se não posso já regressar ao passado, ao meu paraíso perdido, essa perda é também permanência, a lembrança que me há de separar sempre do futuro. Olho a mala onde colocaram o indispensável para que eu pudesse viver nesse lugar onde poderia iniciar o caminho para, um dia, ser "alguém". Nunca se quiseram desfazer dela os que fizeram o sacrifício de a comprar e de a encher: três mudas de lençóis, três cobertores, três colchas, três pijamas, três camisolas, três calças, três casacos, sete camisolas interiores, sete cuecas, sete pares de meias e sete camisas. Sentia-me um noivo com esse enxoval, um noivo que se poderia vestir de luto porque era então que a minha liberdade iria começar a morrer. Comovo-me com essa mala de losangos verdes já desbotados sobre um fundo negro estampados no latão que envolvia a madeira forrada por dentro com papel rosa sobre o qual pareciam chorar pequenas flores de lis azuis. Ela ainda ali está, a um canto, no rés do chão da casa de meus pais, dessa c...

PRINCÍPIO DE UM LIVRO POR FAZER

Imagem
 Em verdade, sou prisioneiro de um passado que perdi e já não posso voltar a ter e de um futuro que nunca terei. Permanece dentro de mim a criança que fui com os pés mergulhados na terra, aquele mundo de poços e de pássaros, de bois e de erva, de videiras e mosto, de flores e de estrume, de carros com rodas de metal rangendo sobre as ruas ou atolados na lama, de noras e infinitos passos em volta, de mãos e de frutos, aquele mundo que foi para mim o paraíso embora fosse tudo menos o paraíso, um mundo andrajoso e doente, de fugas e de mortes precoces, de coisas que não passavam e onde nada se passava, onde haviam de chegar as guerras longínquas mas sempre perto de nós porque perto de nós eram os funerais calados, os discursos ridículos e febris, os aerogramas e pobres mensagens de saudade com tristeza e medo ao fundo, um mundo a preto e branco, mas eu tinha quatro, cinco, seis anos e estava então perpetuamente embriagado de todas as cores, e olhava o mundo, as pessoas, as palavras e ...

A AURORA, de PAUL DELVAUX.

Imagem
  Esta obra é o assumir de uma contradição. Intitula-se A AURORA. E se a aurora da vida está presente nas mulheres e nos homens que figuram no quadro, o negro que cobre o chão onde caminham e a árvore e o céu escuro que cobrem as suas cabeças, assim como as vestes do jovem que caminha em direção ao espetador, recordam que a morte está sempre presente sob os nossos pés e sobre as nossas cabeças. Porém, apesar dessa contradição, a obra mostra-nos o triunfo da esperança: as linhas de força do quadro são três linhas verticais, aproximando DELVAUX de VELASQUEZ, que usou estas linhas de força em duas das suas maiores obras, AS MENINAS e A RENDIÇÃO DE BREDA. E essas três linhas verticais assentam no jovem e nas jovens nuas que são a mensagem da obra: o mistério da vida e da beleza é maior que o mistério da morte. Gosto Comentar Partilhar

DA MASTURBAÇÃO DE UM SOLITÁRIO DEUS

Imagem
Da masturbação de um solitário Deus Nasceram as estrelas Das estrelas veio o barro vermelho E deste o corpo dos homens O seu coração e o seu sangue. Por isso o coração vivo È um longo orgasmo Uma estrela cadente Um cântaro voluptuoso Bebendo dentro de si O próprio vinho. E nós gerados no grande leito Da abóbada celeste Entre a noite e o silêncio Nós que aspiramos a ser deuses Possuídos pela obscenidade Nós seres inquietos Nascido dum céu confuso Aspiramos a criar estrelas Num pequeno buraco O único lugar onde não estamos sós. HENRIQUE DÓRIA

PRINCÍPIO DE UM LIVRO POR FAZER

Imagem
Sou, hoje, pensamento e palavras, e isso é ser aquele alguém que o nós na corda do amor e este país obscuro fizeram de mim. E, no entanto, tenho ainda este corpo todo sensações, todo volúpia como quando me lançava aos poços, nadava na água transparente e fria, subia pelos alcatruzes, subia aos pinheiros vertiginosos e amava a triste Soraya abandonada numa Paris cheia de luzes. Mas tudo isso não passa já de lembrança, de saudade daquilo que já não posso ser mas ainda sou, serei sempre, até à morte. Queria apanhar, agora, esses instantes como apanhava à mão os peixes velozes do rio da minha aldeia, segurá-los vivos debatendo-se entre os meus dedos, largá-los e voltar a apanhá-los no jogo voluptuoso da minha crueldade infantil. Porém, tudo isso é apenas pensamento, uma das partes desse ser dividido que agora sou, a parte mais pobre porque se o sentimento fazia de mim um ser corajoso e voraz o pensamento faz de mim um ser tímido e triste, porque toda a riqueza interior que ele me deu é ap...

PRINCÍPIO DE UM LIVRO POR FAZER

Imagem
Há momentos da minha vida em que não me reconheço a mim mesmo, e outros em que me vejo com nitidez mas a que nunca conseguirei regressar. Cedo me levaram de casa de meus pais para, como dizia o meu avô, fazerem de mim alguém. Diziam ser esta a razão da minha levada, mas sei agora que a primeira razão era outra, e mais terrível: a morte. Cumpriu-se o desejo do meu avô: fizeram de mim alguém e, por isso, estou aqui a debater-me com palavras só concedidas a quem é alguém . Escapei também à morte precoce no fundo de um poço para que me atirava nos meus cinco anos  para sentir a volúpia da queda e de nadar, subindo depois pelos alcatruzes da nora para voltar a lançar-me para a água em volúpia muitas vezes repetida, ou de outra morte na queda de um pinheiro antigo e alto a que subira para sentir nas minhas mãos a volúpia da penugem dos pequenos milhafres. Mas se a morte é a nossa condição, talvez este ser alguém , talvez estas palavras consigam adiar por algum tempo essa condição que po...