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 Tantas vezes sonhei ser livre mas nunca tive coragem para o ser. Um beijo na minha fronte é uma cadeia. Um rosto deitado no meu peito é uma cadeia. Um abraço é uma cadeia. Amar é ser prisioneiro de si mesmo. Ser amado é ser prisioneiro do mundo. Para ser livre precisava precisava de ter uma pequena cabana de madeira de acácia erguida longe de tudo e sem as prisões da alma, ser apenas sensações e fazer murmurar as sensações dentro de mim mesmo como as flores e as árvores murmuram com o vento. Se ficasse prisioneiro da beleza dos montes, abandonava os montes e levava a pequena cabana para junto de um rio. Se a beleza e a frescura das água se transformassem em desejo, abandonava as águas e transportava a minha cabana para uma planície onde o olhar não tivesse limites e eu pudesse sonhar todos os sonhos sob uma azinheira. Hoje é tão fácil o transporte de todas as coisas!

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 Escrever este livro é abrir as portas do labirinto da minha alma em que eu próprio estou perdido. Quem o ler terá uma saída fechando-o nas primeiras páginas se os seus corredores não lhe despertarem a curiosidade, ou varrendo-o da sua memória como ao pó inquieto se tiver a imprudência de chegar ao seu fim. Mas quem chegará ao seu fim? Poem encontrar-se nele gritos e murmúrios, alegrias e lamentações, histórias de absurdas errâncias, frágeis peregrinações no caminho  da sabedoria, da força e da beleza, tentativas de verdade e de salvação através da palavra. Tudo isso será vã vaidade, dirão uns. Conversa de comadres que não leva a lugar algum, dirão outros. Mas as palavras são um impulso a que não consigo resistir, uma submissão em que exibo as minhas fragilidades, mais um nó na corda em que me prendi a  mim mesmo. E, no entanto, elas são o meu pão e o meu lar.  Desde criança me apaixonei pelos livros de história. Aquilo que neles aparecia como realidade era para mim ...

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1.  Sou um ser caótico. Não vejo o  mundo como representação e vontade mas como impulsos de luz, pulsares sem cadência alguma   que, por vezes, param e meditam mas depressa se cansam desse estado de  inércia e meditação. Não tenho planos, porque ter planos é estar na ilusão de poder dominar o futuro,  mas o futuro não existe, como não existe o passado. Existem apenas instantes a que chamamos presente, instantes que surgem e logo se desvanecem. Este livro não tem um plano. É uma casa começada por uma janela, logo abandonada por outra janela. O teto é, talvez, as suas fundações, porque as suas fundações estão num lugar que não sei onde é. De que serve ter planos?  Teve-os o grande Alexandre  mas não pensou na morte precoce. O fabuloso Velho da Montanha teve-os,  sólidos e geniais, mas todos se desmoronaram. Hassan bin al-Shabbat construiu em si uma representação do mundo e quis moldá-lo com sabedoria e força. Mas mesmo a fortaleza que parecia inexpu...

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Amo a Humanidade tanto quanto desprezo a maioria dos homens. Nada espero deles e, no entanto, tudo espero da Humanidade, até a libertação da morte. Ignorância, egoísmo, estupidez, baixeza e maldade são os atributos mais abundantes entre os homens. Ao volante do seu automóvel, um taxista governa o seu país, senão mesmo o mundo que ele ignora. Basta aplicar a pena de morte aos grandes corruptos, ladrões e assassinos. Basta meter na prisão os pequenos e médios corruptos, ladrões e criminosos de qualquer espécie, e tudo no mundo correria na perfeição desde que nos agarremos ao trabalho e olhemos por nós e pela nossa família. Como esse taxista sabe que eu me dou bem com o Presidente da Câmara da vila, agarra a oportunidade de me ter dentro do seu táxi para me pedir que dê uma palavrinha ao Presidente porque há um concurso para psicólogo na Câmara, e a filha, que está há mais de um ano sem emprego depois de acabar o curso, concorreu ao lugar e precisa muito dele. E, contudo, a Humanidade mov...

ALMA VERDE ESPIGA

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  Alma verde espiga Balanceando ao vento Campos perpétuas Onde a minha alma não repousa Saiu do meu corpo Corre como uma lebre louca Contra o mundo contra os males Contra a podridão das peles Contra a podridão das uvas. Aiué ouvia eu na infância E não sabia ler Estrelas Dentro dos meus olhos Não há Deus Só corações famintos Janelas que se fecham mal se abrem Muralhas que não se derrubam Em catadupa Para onde vais espiga Que já não és verde? Não te vês não te vendes Simplesmente vais E não consegues o fio E o vento varre-te Espiga que não se vê Espiga que deixará de ser vista Aiué espiga cheia de sangue. HENRIQUE DÓRIA

Para.

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Para Nenhum caminho Leva ao Paraíso Nenhuma luz Disseram-te as pedras vermelhas E a sombra. Para Disse-te a Estrela Polar Disse-te o Cruzeiro do Sul Enquanto te sustentavas nelas Com os teus pés perdidos Palhaço dos céus E riam os espectadores Do teu equilíbrio instável E ria o leão do Inverno Quando metias a cabeça na sua boca E ficavam flácidas  As tuas orelhas brancas Que caiam de medo. Ai Ai Ai A vida morde. A insustentável vida A única vida Fluido que passa Torrente corrente Menina pequena. Ai Ai Ai Não queiras dormir dentro da ânfora. Caminha nada voa Até que a noite fique Encerrada nos teus lábios Não pares Até à estrada silenciosa Que te leva ao Nada.

Rosa que dormes dentro de mim

Rosa que dormes dentro de mim O meu coração já não fala Com outro coração Está embriagado e triste Porque passam as auroras Passam os gelos E tu não acordas para os meus lábios Libélula vermelha ao vento. Algum dia acordarás para mim Com o sol e a brisa que ele traz Com a música das tílias Sobre o meu peito Com as cortinas que se mexem  Ao som do oboé Com o leito que te espera Ardendo?