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HÁ EM CADA UM DE NÓS

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Há em cada um de nós dois deuses Combatentes. Para cada um o outro é o mal Cada um nos atira contra as rochas Em turbilhões de águas negras Querendo mostrar que nos criou E que nos ama Sob o testemunho das estrelas. São risíveis a prometerem-nos ambos Eternidade e glória Enquanto nos ameaçam  Com a rocha carnívora E o abismo marinho. Mas bem sabemos da sua contingência e brevidade Porque eternamente se escondem Entre o pó das nebulosas Porque à noite e ao relâmpago Se segue a aurora d e um dia tranquilo Que ignora os seus tormentos. Deuses - tende piedade de vós Que nada sois Sem o bater da nossa aurícula esquerda. HENRIQUE DÓRIA

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O amor não é algo de indizível e indemonstrável, mas algo de demonstrável como o mais simples dos teoremas. A sua demonstração tem os passos que vão entre a vida e a morte.

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Começou cedo, para mim, o sofrimento de não amar porque o amor era o sentido da vida, e o sentido da vida era o sentido do corpo mas esse estava muito longe do meu desejo. Depois, quando o amor parecia ter chegado, já não poderia acreditar nele, e continuei a sofrer por não acreditar que, alguma vez, poderia ser amado. Então, não só a vida mas o próprio sofrimento se tornou um hábito de que não podia livrar-me, como não podia livrar-me da vida, essa admirável inutilidade que, desde criança, me tinha feito sentir pequeno e humilhado perante o mundo, enquanto que, confrontando-me comigo mesmo, me sentia grande e arrogante. Esta fratura que havia dentro de mim poderia ter-me levado a que me refugiasse no sonho absoluto ou na absoluta autodestruição, que acabam por ser o mesmo. Salvaram-me as minhas raízes camponesas que sempre me mantiveram ligado à terra mesmo quando sonhava, mesmo quando fazia e não pensava, mesmo quando pensava fazer sem pensar. A prudência é uma arte em que nunca cons...

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No meu futuro erguem-se séculos, muralhas da China que os bárbaros do norte querem conquistar. Mais do que o passado que vivi, o futuro que não irei viver está em mim obsessivamente presente. Amo os homens que hão de vir por não serem o meu presente e, porque hão de vir, serão melhores que os que agora vivem. Vejo-os belos de corpo e alma porque só os vejo no meu pensamento e penso que o meu pensamento é o seu corpo e a sua alma. As mulheres do ano dez mil terão beleza e juventude eternas, numa terra onde viverão num lugar mais alto e mais ameno do que o velho Shangri-la.  No passado, há homens cobertos de armaduras e mulheres que vemos apenas com uma face, como nos frescos fúnebres dos egípcios, porque a outra face foi devorada pela sombra. O passado é um jogo de sombras saídas do Nada que não existe. O futuro irá existir e há de rir-se de todos os esforços presentes dos homens para abandonarem a terra. No futuro só haverá homens artificiais porque serão os homens a criarem-se a e...

VERTICAL

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O homem cresce vertical Assim com as cristas dos pinheiros Depois vem o vento Da morte E ele inclina-se na queda Recorda que foi vertical e verde E depois morre. O pinheiro sobre o mar ganha Ninhos de pocessionária Que o devoram na vertical Lhe roem a resina E ele estiola E desce na vertical E depois morre. Vem então o fogo Que brilha na vertical Cresce no colo das raparigas Mas depois vem a noite O frio silencioso E o fogo expira na vertical E depois morre. Vem por fim a água Que desce na vertical E molda o canto da terra E brilha sob os espíritos Entre as tílias do coração Escoa-se na vertical E não morre. HENRIQUE DÓRIA

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Na verdade, elas, as palavras, livres das coisas que outrora as apsisionaram, choram e riem no seu interior sensível, e são boas e belas, e fonte de sabedoria. Caminham e fluem incessantemente, e o homem caminha e flui com elas, excitadas amantes que falam a linguagem da sedução para o dominarem. Queremos libertarmos delas, do seu nevoeiro que tantas vezes nos perturba o pensamento, mas não podemos. Elas cantam-nos, as sereias, nuas nas suas vozes de mármore, a nós que não temos protegiadas as membranas dos nossos ouvidos nem  fomos atados aos mastros dos navios. Estamos condenandos a viver com elas? Na verdade, queremos fugir e não podemos: no seu mar estamos cercados por línguas de fogo.

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Passo pela vida mais depressa do que os automóveis passam pela minha rua. Mas os automóveis que passam pela minha rua são para mim e para a gente que está na minha rua, e a minha vida é para o mundo de hoje e para o que virá depois de mim, até não haver mais mundo.Mesmo que o mundo me ignore, eu pertenço ao mundo de hoje e de amanhã, porque nada depois de mim será como era antes de mim. Tudo é, tudo será diferente por eu ter sido eu e ter colocado a minha pegada na areia do mundo. O vento e a água apagarão a minha pegada mas, por via dela, a areia não será mais o que era dantes, nem como era dantes. Em breve deixarei de ser lembrado. Porém, o mundo continuará mas já não será o mesmo porque teve o meu olhar e deixará de o ter, e o meu olhar era o meu modo de entender o mundo que terá outro sentido sem o meu olhar. Está aqui este jardim, mas ele precisa que eu o veja para ser jardim, porque se eu não o vir ele será apenas árvores e flores  e relva, e os bancos verdes e vazios. Sou e...