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 172 "Se queres ir de Roma a Jerusalém, segue para sul e pergunta ao longo do caminho". Era este o conselho que o GUIA DO PEREGRINO a Santiago de Compostela dava aos fiéis. É assim que tenho caminhado ao longo da minha vida. Sei o ponto de partida, sei o lugar de destino. O resto vou perguntando ao longo do caminho: à terra, às estrelas, aos montes, às veredas, às esquinas e ao vento que nelas fala. Esqueço-me sempre de perguntar a mim mesmo porque sempre me encontro a olhar para os caminhos que se bifurcam e sei, à partida, que hei de escolher aquele que é o caminho dos outros. E poderia ser de outro modo para quem, como eu, sente maior pena dos outros que de si mesmo?    

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 167 Não há quatro verdades, mas quatro vezes quarenta e quatro quarenta e quatro vezes. Acreditar que nos libertamos conhecendo as quatro verdades e percorrendo os oito caminhos é infantil e ilusório. Se o sofrimento é uma verdade, a alegria também o é. Caminhamos sempre entre a dor e a alegria, duas retas paralelas que, tantas vezes, se encontram. O desejo é o caminho para ambas. Anular o desejo, arrastar a vida aceitando-a sem desejo é, ainda assim, outro desejo que só se persegue com vontade, uma vontade como qualquer outra vontade, até a vontade de poder. As quatro verdades e os oito caminhos são simples para os que acreditam que há outras verdades e outros caminhos para além da morte. Mas a morte não tem caminhos, nem veredas, nem verdades. Eu sigo a minha verdade,  a verdade que vou escolhendo e a que penso que vou escolhendo mas que outros vão escolhendo por mim, ou, nem sequer os outros, mas apenas o acaso vai escolhendo acompanhado pelo erro. Não sigo qualquer discip...

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 Sou, em verdade, um ser digno de pena, porque são dignos de pena os seres dominados pelo coração. Mas eu mais ainda porque o meu coração é um pêndulo incerto que perturba os que me rodeiam e me perturba a mim ainda mais. Quero e não quero, gosto e não gosto, desejo e não desejo com inclinações que, subitamente, mudam porque saltei da lembrança de uma palavra para outra palavra, de um gesto para outro, de uma cor para outra, de um som para outro, da imagem de alguém em que, num momento, confiei e me fez feliz para a imagem de outro momento em que duvidei e a dúvida me fez infeliz. Memórias que eu pensava estarem perdidas regressam apenas porque são contrárias a outras memórias. A palavra idade, por exemplo, faz-me sofrer, não porque sinta o temor do tempo que avança sobre mim para, lentamente, me sufocar, mas porque um dia menti sobre a minha idade e alguém importante na minha vida me mentiu sobre a sua idade. A cor amarela tão rara numa rosa traz para junto de mim uma mulher que n...

O TEU VESTIDO

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 O teu vestido balança e dobra-se Tocado pela flor do vento. Dentro dele só a tua memória Porque um dia o teu vestido se dobrou Sob o narciso negro. HENRIQUE DÓRIA

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 162 Depois de Auschwitz, Deus encontra-se a revolver uma lixeira para saber se não é, ele próprio, lixo. 163 Saído da terra, a minha vocação é ser um perdedor porque me abandonei a mim mesmo. É pela perda que sinto mais a vida. As vitórias cansam-me e causam-me tédio, às vezes mesmo náusea. As derrotas estimulam-me para lutar por novas derrotas. Vitória e derrota é tudo um jogo de sombras, mas só a derrota me expõe à luz que eu sei ser uma ilusão. Mesmo antes de a alcançar, e sabendo que a irei alcançar, a vitória já me cansa. Escrever este livro cansa-me ainda antes de o terminar porque sei que o irei terminar e o terminá-lo será a minha vitória. Tudo é vaidade? Não. Só a derrota não é vaidade.  Por isso me atrai tanto. 164 Ter abandonado a terra foi para o homem a maior catástrofe. Ele caminha sobre a terra mas já não a sente porque já não afunda no barro os seus pés nus, o que para ele era o grande ato de amor. Civilizações vieram, o homem prolongou a vida, parece que a ir...

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 159 Meu pai, quando fala da sua morte que sente aproximar-se, diz com resignação que é uma dívida que tem de pagar. Eu, seu filho, digo-lhe, com serenidade, que já pagámos essa dívida que não contraímos, embora dela sejamos beneficiários, pelo nosso sofrimento e o sofrimento dos outros que nós próprios sofremos. E é uma dívida injusta porque foi a natureza que nos impeliu a ela, pois tem a ambição insensata de se replicar eternamente. 160. A realidade é a consciência da fragilidade dos nossos sonhos. 161 Ao almoço, em Terras de Miranda, serviram-me carne de boi mirandês que vinha acompanhada de um pequeno cartaz a cores, com a fotografia do boi e a sua árvore genealógica. Soube-me bem aquela carne de boi suspensa numa árvore genealógica.

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  Só os poetas poderiam transformar a Arcádia, uma terra pedregosa e inóspita de pastores rudes que faziam sexo com as suas cabras num lugar fértil e feliz onde abundavam a água e as belas ninfas. Ninguém como eles lograria transformar a realidade em sonho e o sonho em realidade com um poder que é abdicação. Os poetas árcades viviam, assim, na angústia de quem sabe que vai morrer e que, depois da morte, só há o infinito nada igual ao infinito nada antes da vida. Sabendo que, aí, não haveria tempo nem lugar, criaram um lugar sem tempo como modo de redenção.  É isto a poesia.