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Encontro-me com a amada no centro da floresta. A floresta é o lugar onde nos sentimos mais sós porque é o lugar onde todos os caminhos se encontram para os esquecermos e só nos lembrarmos de nós. Nela encontramos o nosso próprio caminho, o meu em ti e o teu em mim. Eu e tu estamos agora no centro da floresta. Amamo-nos sem nos desejarmos, dormimos sobre as ervas da Primavera e as folhas de Outono com uma espada a separar-nos impedindo todo o desejo. Separados na noite pela espada, estamos unidos no resplandecente amor. Olho-te e tudo é contemplação, volúpia de não te possuir quando estás só sob as minhas pálpebras. Amamos amar e, por isso, não se unem os nossos corpos porque todo o amor fica em nós na alma até ao esquecimento do corpo. Estamos juntos mas tão longe, perdidos no labirinto das árvores. Amo-te sem te conhecer e, assim, conheço-me desconhecendo-te, e alcanço através da tua a minha verdade. O nosso amor é o desespero de lobos e lobas uivando loucamente à lua de ouro, a c...

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  À lareira da ternura Aqueço a minha pele madura. Vai já longe a Primavera Mas resta ainda o lume breve De alguma coisa que era. HENRIQUE DÓRIA

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 O amor é uma questão de espelho ou o próprio espelho? A imagem encantada do espelho é o corpo cansado que ousou ser outro ou o corpo que sonhou com o seu próprio encanto? Mudar a imagem simultaneamente de fora para dentro e de dentro para fora, é isso o amor impossível? Vagueando no espelho à procura de si mesmo ele é silêncio ou grito? No espelho, todo o amor é um sonho que grita contra o silêncio que o devora.

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Sou um navegador da alma. A alma é a terra de todos os lugares de aquém e além das Colunas de Hércules, dentro do nevoeiro onde estão as Ilhas Afortunadas. Nas Ilhas Afortunadas ninguém trabalha ou exerce qualquer espécie de comércio, porque cada um está cheio daquilo que tem e daquilo que não tem. Nas Ilhas Afortunadas o sol brilha até na noite. Mas embora nelas nasçam frutos e flores e aves felizes, todos os dias são lançados cadáveres ao mar. As Ilhas afortunadas estão dentro do nevoeiro, mas conheço-as tão bem como as que vejo sob o céu completamente limpo, ou as que se encontram sob um céu só às vezes limpo como aquela em que esverdece a Caldeira  das Sete Cidades. À sua volta existem sete cidades construídas pelo nevoeiro da lenda mas que são mais reais que outras sete cidades que existam na realidade porque a sua realidade é a de quem as sonha, e quem as sonha pode sonhá-las de infinitas formas e infinitas cores que podem mudar a cada instante, como nunca acontece às cidades...

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Fui vivendo o desejo de viver sempre movido pelo sonho e pelo acaso. Sonhava e vivia e, ao viver, o acaso fazia viver em mim sonhos diferentes dos que antes imaginara sonhar, e esses sonhos moviam a minha vida para nunca a alcançar. Viver os sonhos e para além dos sonhos, ser sonhado pelas sensações era o meu destino que o acaso tudo fazia para não ser destino. Quis amar e o amor chegou com o acaso e o engano. Acasos e desenganos foram sempre a minha condição. Às vezes, enganos e acasos logravam ser felizes. Nunca parei para fazer para meu uso um manual de instruções. Para mim, isso seria uma tarefa inútil, pois sempre vivi contra todas as instruções, mesmo aquelas que eu tinha sonhado para mim mesmo. Por isso, umas vezes sentia pena, outras remorsos dos meus sonhos e da inutilidade que lhes dera. Outras ainda, sentia saudades de os ter sonhado. Caos era o que eu vivia ao formar-me a mim mesmo, e os meus sonhos moviam-se sobre esse caos e o seu abismo. Em mim nunca houve desertos, mas ...

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 Os gregos, de quem tudo nos chegou, bem sabiam que o homem é um conglomerado mole de forças contraditórias, tantas vezes instintivas, tantas vezes racionais. Porém, as duas primeiras, Eros, o desejo, e Hipnos, o sono, acabarão sempre por se dissolver numa última e absoluta, Tanatos, a morte. Ares, o deus da guerra e do triunfo, supremo desejo de dominação, ele mesmo só pode triunfar através da morte. Não houve em toda a história do homem civilização que mais levasse ao extremo essa união entre o desejo, o sono e a morte do que a romana. E, no extremo desse extremo, estavam os próprios imperadores e, acima de todos, Tibério. Prestes a morrer, o violento Augusto, referindo-se ao seu genro Tibério que lhe iria suceder no Império, exclamou para os escravos que o rodeavam: "Desgraçado povo que vai cair em tão lentas mandíbulas.". E, no entanto, o monstruoso Tibério era ele mesmo um conglomerado de for ças contraditórias. Assistira aos assassinatos ordenados por Augusto na sua asc...

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 Regresso solitário ao meu passado porque é impossível regressar ao meu passado e, por isso, ninguém me pode acompanhar nesse regresso. Além disso, o meu passado é uma lenda triste, cheia de temor e de culpa de o ter, cheia de impulsos infantis e amores adultos que nunca tive porque eu nunca fui eu mesmo e ignorava que alguma vez poderia sê-lo, e ainda não sei se sou eu mesmo ou alguma dia serei porque sempre quis ser outro que não eu mesmo, e se fosse outro queria ser outro para além desse outro. A minha lenda recordo-a agora com cenas que podem ser substituídas por outras cenas, que podem ser cortadas e coladas como se faz nos filmes porque, como nos filmes, tudo na vida pode ser cortado e colado, porque o ângulo em que as cenas são vistas pode mudar a cada instante com o modo de ver e os sentimentos do autor e aquilo que não é modo de ver nem sentimentos e nem ele mesmo sabe o que é, porque tudo nele muda a cada instante e, no instante seguinte, ele já não ele. O que mais me dói...