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DA MASTURBAÇÃO DE UM SOLITÁRIO DEUS

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Da masturbação de um solitário Deus Nasceram as estrelas Das estrelas veio o barro vermelho E deste o corpo dos homens O seu coração e o seu sangue. Por isso o coração vivo È um longo orgasmo Uma estrela cadente Um cântaro voluptuoso Bebendo dentro de si O próprio vinho. E nós gerados no grande leito Da abóbada celeste Entre a noite e o silêncio Nós que aspiramos a ser deuses Possuídos pela obscenidade Nós seres inquietos Nascido dum céu confuso Aspiramos a criar estrelas Num pequeno buraco O único lugar onde não estamos sós. HENRIQUE DÓRIA

PRINCÍPIO DE UM LIVRO POR FAZER

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Sou, hoje, pensamento e palavras, e isso é ser aquele alguém que o nós na corda do amor e este país obscuro fizeram de mim. E, no entanto, tenho ainda este corpo todo sensações, todo volúpia como quando me lançava aos poços, nadava na água transparente e fria, subia pelos alcatruzes, subia aos pinheiros vertiginosos e amava a triste Soraya abandonada numa Paris cheia de luzes. Mas tudo isso não passa já de lembrança, de saudade daquilo que já não posso ser mas ainda sou, serei sempre, até à morte. Queria apanhar, agora, esses instantes como apanhava à mão os peixes velozes do rio da minha aldeia, segurá-los vivos debatendo-se entre os meus dedos, largá-los e voltar a apanhá-los no jogo voluptuoso da minha crueldade infantil. Porém, tudo isso é apenas pensamento, uma das partes desse ser dividido que agora sou, a parte mais pobre porque se o sentimento fazia de mim um ser corajoso e voraz o pensamento faz de mim um ser tímido e triste, porque toda a riqueza interior que ele me deu é ap...

PRINCÍPIO DE UM LIVRO POR FAZER

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Há momentos da minha vida em que não me reconheço a mim mesmo, e outros em que me vejo com nitidez mas a que nunca conseguirei regressar. Cedo me levaram de casa de meus pais para, como dizia o meu avô, fazerem de mim alguém. Diziam ser esta a razão da minha levada, mas sei agora que a primeira razão era outra, e mais terrível: a morte. Cumpriu-se o desejo do meu avô: fizeram de mim alguém e, por isso, estou aqui a debater-me com palavras só concedidas a quem é alguém . Escapei também à morte precoce no fundo de um poço para que me atirava nos meus cinco anos  para sentir a volúpia da queda e de nadar, subindo depois pelos alcatruzes da nora para voltar a lançar-me para a água em volúpia muitas vezes repetida, ou de outra morte na queda de um pinheiro antigo e alto a que subira para sentir nas minhas mãos a volúpia da penugem dos pequenos milhafres. Mas se a morte é a nossa condição, talvez este ser alguém , talvez estas palavras consigam adiar por algum tempo essa condição que po...

ELE ERA O VENTO JOVEM

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Ele era o vento jovem E a sua voragem Adorava devorar as flores carnívoras Os seus dedos de moça A sua cabeça incendiada. As palavras suspensas num pêndulo Ele não as ouvia Tinha apenas o corpo  E a sua loucura. Não via o pensamento Nem as imagens Não via a multidão que o olhava Nem as memórias inquinadas Caminhava sobre a areia e a espuma Desejava com sofreguidão de criança Todas as bilhas da terra Água vinho e mel E gritos selvagens Tenazes ardendo sobre a pele Tenazes fazendo ferver A alma. HENRIQUE DÓRIA

HÁ COISAS QUE ESPERAM POR NÓS

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Há coisas que esperam por nós Até morrermos E, no entanto, seres distraídos E volúveis Partimos Sem um lenço vermelho Sem um lenço branco A dizer-lhe adeus. Aquele rosto alto de mulher por detrás da rapariga A alumiar a água Aquele ácer ardente na encosta Aquela pedra branca que me falava Vento suave ao meu ouvido Aquele rio - Aquele monte Aquela oliveira plena de luz Candeia nas mãos de milhares de mortos Para elas Os nossos anos foram só névoa Dentro dos olhos Palavras silenciadas dentro das bocas Ternura esquecida nas mãos famintas Agora pobres mãos de nada E de ninguém. HENRIQUE DÓRIA

FRAGMENTO

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Apesar de se reivindicar do judaísmo, o cristianismo tem muito mais de platonismo do que de judaísmo. Basta lermos a parte final de A REPÚBLICA, livro X, para percebermos que o livre arbítrio na escolha do bem e do mal, o julgamento, as delícias luminosas do Céu e as penas e trevas do Inferno, Deus e os demónios que torturam os mortos que escolheram o mal, o Purgatório como lugar de purificação, tudo isso é apenas uma criação grega, expos ta por Platão.  A Torah ignorava a existência do Céu e do Inferno, que só aparecem no judaísmo posterior. A referência ao Purgatório não aparece no Antigo Testamento. Os demónios  com que Tertuliano ameaçou os romanos  para os converter pelo medo das piores torturas ( que haveriam de ser aplicadas pela Santa Inquisição) e os santos que ocupavam o Céu, junto de Deus, eram uma criação grega, visível naquele livro X de A REPÚBLICA. Tudo mitos cuja origem se esconde porque revelaria a fragilidade de uma crença.

AH GENTIL COBRA

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 Ah gentil cobra Com uma faca na mão E um capelo nos dentes Morde-me até eu morrer. HENIRUQ DÓRIA