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TUDO PERMANECE E, NO ENTANTO

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Tudo permanece e, no entanto Tudo mudou- Eu já não sou eu Eu nunca fui eu Mas o meu rosto quebrado No espelho Entre duas paisagens. Não me reconheço Nestes fragmentos de água. Ainda que recorde O antigo desejo Como um sonho esquecido Nada me é indiferente. Embora tudo seja diferente Eu permaneço extasiado Com o que poderia ter E só com o que perdi Árvore descarnada Sob um céu estrangeiro. É tarde Curvam-se ao tempo os rios E eu curvo-me com os rios Mas amando ainda u m terno e húmido Poente.

NLD

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  (cena 2 continuação) Furioso, o Presidente dirige-se para a porta que separa o seu gabinete  do gabinete  da secretária, e grita: PRESIDENTE- Menina, ligue-me para Deus Pai! BEATRIZ- Ai presidente mais querido do mundo, tanta fúria, tanta violência! A sua escrava obedece já. A secretária liga para Deus Pai. Este atende com serenidade e bonomia. Vê-se a sua imagem num écran. Tem dois olhos normais, mas também um grande olho de falcão no meio da testa. DEUS PAI –Senhor Presidente, quanta alegria no seu telefonema. O que pretende deste Pai compassivo? PRESIDENTE- Deus Pai, vós bens sabeis como vos venero, vos obedeço, vos louvo, etc. Preciso da vinda da Majestade à Casa Negra. Pode ser amanhã, quando Hemera lançar os seus dedos de púrpura? DEUS PAI-   Não me esqueço quanto me tem venerado, obedecido, louvado, etc. o poderoso Presidente. Por isso estarei na sua casa, amanhã, quando a Hemera se juntar a Nix. Estou a construir um novo míssil hipersónico com...

O NOVO LIVRO DO DESASSOSSEGO

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(Continuação da cena II) Sai a secretária acompanhando o general e o presidente abre uma gaveta e tira um charuto Cohibe Behyke 52 da caixa. Dirige-se para o sofá à sua direita e entra Beatriz com um hamster listrado chinês ao colo e exibindo as mamas nuas. Beatriz - Ai o presidente mais poderoso do mundo que está sempre pronto para todas as guerras. Presidente - Ai a mais sensual secretária do mundo que está sempre pronta para as guerras do amor. Mas antes das nossas guerras privadas vais fazer uma ligação ao Diretor Geral da CUA. Preciso falar urgentemente com essa enguia. Depois, enquanto ele não chega, o meu tempo e o meu corpo serão teus. Só teus. Para a nossa guerra privada. Ai gata que te arranho toda. Miaaaaaaaaaaaaaaaauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu Beatriz -Miaaaaaaaauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu Eu sou uma gata Sempre pronta pra arranhar Em sou uma cadela  Sempre pronta pra morder Eu sou uma égua Sempre pronta a cavalgar. Ai senhor cavaleiro Estou pront...

O NOVO LIVRO DO DESASSOSSEGO

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CENA I    Dois anões  que se dedicam à nobre tarefa de arrumadores de carros, um de cabeça redonda outro de cabeça cúbica, discutem pela demarcação do seu espaço vital na mesma rua e acabam por se envolver em pancadaria. São incentivados à luta pelo dono do Porsche cuja gorjeta ambos disputavam, e por mirones que se juntaram para presenciarem a discussão e a luta. Só uma mulher tenta apaziguá-los, ao mesmo tempo que invetiva todos os que incentivam a zaragata - (Mirones simulando o coro da tragédia grega)   Não ter armes em santa, menina apaziguadora. A vida é uma luta de anões. Todos somos anões sobre a terra. O que eles fizeram foi com que nos víssemos ao espelho e ríssemos da nossa insignificância e bravata. O grotesco deles está também dentro de nós. Aqueles anões golpeando-se exibiram também o nosso grotesco. Somos seres que se atiram  à luta ignorando que sempre hão de perder mesmo ganhando, ignorando a sua insignificância. Seres ridículos fazendo-se incap...

CAMINHO SOBRE AS FERIDAS DE OUTONO

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Caminho sobre as feridas de Outono Sou um faquir saboreando espadas E cuspindo labaredas contra O negro do céu. E tudo parece em vão E não foi. Tudo parece vento contra As colunas  E os capitéis decepados Que o vento gosta de escarnecer. Nada lhe resiste Ao ar flagelando o mar Nem ao sentimento do tempo. Fúrias fundas Fogos fátuos Flácidas flores de Outono Que caem como cascatas Sobre a liberdade tantas vezes esmagada Não ouvi o amor Que ria à sombra das raparigas Sobre o orvalho do Verão Não bebi as luminosas águas fendidas Ao fundo´ Onde nadavam peixes nus À semelhança de príncipes. Apagam-se agora os espelhos Da Primavera Vai-se fechando a janela do peito À alegria Vai me retirando à vida  Um Deus castrado. E tenho vontade de dormir Dormir dentro duma ânfora Sonhando com a estrada perdida Que nunca mais voltará. HENRIQUE DÓRIA  

O NOVO LIVRO DO DESASSOSSEGO

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 (CENA II) A cena decorre numa sala triangular em que o vértice menor do triângulo isósceles está junto à frente da mesa presidencial. No centro do triângulo, a cabeça do leão da Metro Golden Mayer. A cadeira do presidente tem uma águia dourada  erguida, de asas alargadas. No lugar do corpo  da águia há uma zona esventrada, oval, com fundo vermelho, onde se encontra o assento. Essa zona  tem dois metros de altura para que o presidente se possa erguer dentro dela. As pernas da frente da cadeira são douradas e têm a forma das patas da águia. Os braços da cadeira são também dourados, com os focinhos do leão  da MGM nas extremidades. Por detrás da águia, e a tapar a janela de cinco metros de altura e três de largura, uma cortina branca com bandas laterais vermelhas. Sanefa vermelha com recortes semicirculares. Nas paredes, ao lado das cortinas, estão dois grandes retratos: um do primeiro presidente, de frágeis cabelos brancos a caírem-lhe nos ombros, gibão negro, ca...

POEMA X (extrato)

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  POEMA X (extrato) O sonho matéria do corpo Cabeça de criança animal que corre Abre-se para a eternidade Mas aqui é o império das aves O instante entre O Nada e o Nada. Canta ave do Nada Colibri do instante Segura a lua com as tuas pupilas E o sol com os teus lábios E canta. Anjos demónios Folhas voando ensandecidas. A pá vai revolvendo a terra Vai abrindo valas Vai tapando as entranhas O esmeril vai afiando A lâmina Que irá cortar as asas dos anjos E tudo é insignificante menos a lâmina A pá A mó da água Que tudo move em direção à morte Que tudo mói. Relâmpagos antecipam o estrondo Das nuvens contra as nuvens Tudo túneis Tudo ecos do céu Sem fundo. Águas brancas emendam-se Com águas negras O mar pensávamos que era o mar Miragem nevoeiro ao longe Derrubando velas Ondas ondas ondas Consomem o corpo Tudo é menor dentro do espaço Não há tempo Sequer para a dor Para a linguagem Para a mulher que se ama. ...