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O NOVO LIVRO DO DESASSOSSEGO

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CENA I    Dois anões  que se dedicam à nobre tarefa de arrumadores de carros, um de cabeça redonda outro de cabeça cúbica, discutem pela demarcação do seu espaço vital na mesma rua e acabam por se envolver em pancadaria. São incentivados à luta pelo dono do Porsche cuja gorjeta ambos disputavam, e por mirones que se juntaram para presenciarem a discussão e a luta. Só uma mulher tenta apaziguá-los, ao mesmo tempo que invetiva todos os que incentivam a zaragata - (Mirones simulando o coro da tragédia grega)   Não ter armes em santa, menina apaziguadora. A vida é uma luta de anões. Todos somos anões sobre a terra. O que eles fizeram foi com que nos víssemos ao espelho e ríssemos da nossa insignificância e bravata. O grotesco deles está também dentro de nós. Aqueles anões golpeando-se exibiram também o nosso grotesco. Somos seres que se atiram  à luta ignorando que sempre hão de perder mesmo ganhando, ignorando a sua insignificância. Seres ridículos fazendo-se incap...

CAMINHO SOBRE AS FERIDAS DE OUTONO

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Caminho sobre as feridas de Outono Sou um faquir saboreando espadas E cuspindo labaredas contra O negro do céu. E tudo parece em vão E não foi. Tudo parece vento contra As colunas  E os capitéis decepados Que o vento gosta de escarnecer. Nada lhe resiste Ao ar flagelando o mar Nem ao sentimento do tempo. Fúrias fundas Fogos fátuos Flácidas flores de Outono Que caem como cascatas Sobre a liberdade tantas vezes esmagada Não ouvi o amor Que ria à sombra das raparigas Sobre o orvalho do Verão Não bebi as luminosas águas fendidas Ao fundo´ Onde nadavam peixes nus À semelhança de príncipes. Apagam-se agora os espelhos Da Primavera Vai-se fechando a janela do peito À alegria Vai me retirando à vida  Um Deus castrado. E tenho vontade de dormir Dormir dentro duma ânfora Sonhando com a estrada perdida Que nunca mais voltará. HENRIQUE DÓRIA  

O NOVO LIVRO DO DESASSOSSEGO

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 (CENA II) A cena decorre numa sala triangular em que o vértice menor do triângulo isósceles está junto à frente da mesa presidencial. No centro do triângulo, a cabeça do leão da Metro Golden Mayer. A cadeira do presidente tem uma águia dourada  erguida, de asas alargadas. No lugar do corpo  da águia há uma zona esventrada, oval, com fundo vermelho, onde se encontra o assento. Essa zona  tem dois metros de altura para que o presidente se possa erguer dentro dela. As pernas da frente da cadeira são douradas e têm a forma das patas da águia. Os braços da cadeira são também dourados, com os focinhos do leão  da MGM nas extremidades. Por detrás da águia, e a tapar a janela de cinco metros de altura e três de largura, uma cortina branca com bandas laterais vermelhas. Sanefa vermelha com recortes semicirculares. Nas paredes, ao lado das cortinas, estão dois grandes retratos: um do primeiro presidente, de frágeis cabelos brancos a caírem-lhe nos ombros, gibão negro, ca...

POEMA X (extrato)

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  POEMA X (extrato) O sonho matéria do corpo Cabeça de criança animal que corre Abre-se para a eternidade Mas aqui é o império das aves O instante entre O Nada e o Nada. Canta ave do Nada Colibri do instante Segura a lua com as tuas pupilas E o sol com os teus lábios E canta. Anjos demónios Folhas voando ensandecidas. A pá vai revolvendo a terra Vai abrindo valas Vai tapando as entranhas O esmeril vai afiando A lâmina Que irá cortar as asas dos anjos E tudo é insignificante menos a lâmina A pá A mó da água Que tudo move em direção à morte Que tudo mói. Relâmpagos antecipam o estrondo Das nuvens contra as nuvens Tudo túneis Tudo ecos do céu Sem fundo. Águas brancas emendam-se Com águas negras O mar pensávamos que era o mar Miragem nevoeiro ao longe Derrubando velas Ondas ondas ondas Consomem o corpo Tudo é menor dentro do espaço Não há tempo Sequer para a dor Para a linguagem Para a mulher que se ama. ...

A MINHA VIDA

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A minha vida não é só da minha vida É também dos que sofrem a pedra E as silvas da humilhação Desses que nem sei que existem Que são vento - novo ou velho A quem a neve cortou os lábios Mas ainda são capazes de sorrir Entre dois sofrimentos- Desses que vivendo preferiam Estar mortos A beber o leite negro do meio dia Desses que caminham na própria sombra Num qualquer lugar De onde até as árvores partiram Desses que habitam a caverna da dor Sem nunca conhecerem a ave da primavera. Dos seus corações cheios de gritos De sirenes De portas fechadas A minha vida com eles partilha  O fogo - e o grande frio . HENRIQUE DÓRIA

NLD

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  A juventude passou ao meu lado como uma nuvem estranha, uma ilusão a cada dia perdida. Desde cedo me comecei a entregar aos outros e a nada. Sempre fui contradição pura: desejo e abdicação, vento e nó numa corda, sonho e pés nus sobre a terra. Cedo cheguei ao tempo em já não poderia ser apenas eu. Tarde demais agora para regressar ao mar da liberdade onde nunca estive. Perdido que foi o tempo das cerejas, resta a nostalgia e o cansaço. Sinto cansaço de mim mesmo. Tudo em mim não é mais do que uma propagação de círculos como quando sobre um lago se lança uma pedra, círculos que morrem ainda antes que a pedra alcance a água. Tudo em mim é emoção e, por isso, me sinto estrangeiro neste mundo explicado. Se a juventude é uma virtude viril, muito mais doloroso é nunca a ter possuído do que perdê-la Se foi um mistério que se dissipou em mim  sem nunca chegar a sê-lo, resta-me dela a serenidade que ela não dá e um sorriso de perdão pelas loucuras que não tive ou pela coragem que me ...

NLD

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 Nada nos deuses é oferenda para os homens. A vida que lhes deram tem o preço da morte, a alegria o preço da tristeza, o riso o preço das lágrimas. Trocam a fortuna pela desgraça, as mansões dos ricos pelos casebres dos pobres, a glória pela humilhação, o nascimento ao amanhecer pela morte ao crepúsculo. Jamais os ricos ou os pobres compreenderão a vontade dos deuses, porque são tão efémeras as suas moradas, ou porque tantas vezes aqueles se atormentam e sofrem e estes se alegram e têm momentos de felicidade. Jamais os deuses hão de compreender  a fome e sede de amor dos homens que são a sua grandeza face ao orgulho divino. De tão grandiosos, os deuses estarão sempre distantes dos homens, tal como as estrelas, e é essa distância que os faz incapazes de amar. Eles, os deuses, caminham serenos e altivos sobre a roda do tempo, sem compreenderem que, como os homens, não irão resistir à sua invisível mó.