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ADIVINHAS

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 Há em ti uma obscura fidelidade, rosa de ninguém? Rosas de primavera ou uvas de outono, onde está o sopro da fertilidade? Apaixonado pela terra ou pela sua solidão a caminho da derradeira neve? Apenas solidões paralelas que se encontram? Deitar-se-á a lua no leito dos velhos? Quando uma estrela cai dentro do espelho, cai também uma lágrima? Poço de águas negras, profundas? Melhor a erva ou a calhandra de vôo incerto? A beleza das folhas de Outono caindo ao encontro da morte? A nossa hipnose de vôo é igual ou maior que o céu estrelado? Videiras e rosas sonham o rosto da amada? Com as videiras e as rosas parti numa embaixada? HENRIQUE DÓRIA 

ADIVINHAS

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 Porque escreveste o teu poema na areia durante maré baixa sabendo que a maré alta chegaria à hora certa? Multiplicam-se os facínoras e os loucos porque são semeados com dentes de sangue? Foram os pássaros feridos que plantaram árvores na floresta? A avidez da tua chama nasce do vermelho do teu sangue? Ainda terão tempo os homens para voltar a nascer? Porque são de asas os meus sonhos se tenho raízes na terra?

ADIVINHAS

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Esquecer o sofrimento com o vinho ou com a fonte fria? Que vinho poderá inclinar o rosto para a terra ou elevá-lo para o céu? Beber para a esquecimento não será abrir outra ferida para o sofrimento? Há em mim três seres ou três modos de impotência? É quando une o sol e a terra que a coreopsis tem maior beleza? Deitado no escuro do meu quarto interrogo-me sobre as palavras a colocar na cabeceira do meu túmulo: rosa, ninguém, volúpia? A primavera das ervas e o Outono das frutas não estão ambos lado a lado com o Inverno do desespero? Porque semeias sempre e sempre após cada fracasso? Não era de cor púrpura a boca do demónio quando convenceu a mulher a comer a maçã ou a laranja da morte? Haverá também no céu uma árvore do conhecimento do bem e do mal? Morrendo tantas vezes na terra em cada perda ainda haveremos de morrer um derradeira vez no céu? Criados por Deus à sua imagem e semelhança, o Seu sangue é igual ao nosso?

ADIVINHAS

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Quem conduz a minha carruagem, eu ou os boleeiros que me deu o tempo? Um fio de sangue saindo da minha sombra sou eu? Há um espelho dentro do poema ou uma nuvem de crinas revoltadas? Saberão os mortos o que é o amor deslizando pelos seios nus e pela vulva vermelha de uma jovem mulher? Logrará alguma vez o homem descobrir o mistério que há dentro dos olhos do tigre? O sulfuroso e o doloroso incluem-se? Não é a memória uma dor maior do que nós? Podemos dizer que viveu aquele a quem nenhuma mão acariciou o lençol? Em que palavras haverá mais poesia, nas que escrevi ou nas que esqueci? Haverá uma videira da salvação? Não estão a ver-se num só espelho a sabedoria e a dor? No fim de combates impiedosos não serão as feridas sempre maiores que os louros do triunfo?
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  Nunca tive a coragem das naves  Para com elas partir Nem das aves que comigo  Dividiam a terra e o céu O medo e o amor escorriam  Dentro das minhas raízes  Seiva negra e branca  Seiva branca e negra E a seiva conversava com a seiva Conversas noturnas  Conversas diurnas Buracos no cérebro  Constelações girando em volta Estrelas cruéis atacando  As minhas pupilas Perfurando o meu crânio  Com as suas verrumas Gemidos  Cometas perdidos E eu amante sem leito e sem leme Ignorando o meu caminho Amante sem esperança  E sem fé na boda ou no vinho. HENRIQUE DÓRIA 

POEMA XII

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  Entre a ubiquidade de Deus Vive uma pomba Com o seu coração  dividido E a artéria aorta ligada Ao cântico dos cânticos E a pomba  beija o lado direito De Deus com a sua língua Santificada e dadora de vida Para que do seu ventre nasçam peixes E um belo homem louro Com uma coroa de espinhos Preparando o triunfo do sangue E o belo homem louro é um nardo Ardente nas coxas da amada Um homem multiplicador de pães Caminhante fazendo o seu caminho Sobre a superfície das águas Lado a lado com o basilisco Numa mão levando a espada Noutra o vermelho hibisco -Porque ele sabe que o amor e a beleza Estão destinados à morte- Caminhando também pelas montanhas Onde se prolongam as bem aventuranças O sal e  as palavras. Pai, porque fizeste do belo homem louro O. branco cordeiro do sacrifício ? Já não serves para nada Pai És um sapato roto Esquecido numa vereda Um pó negro de trigo Entre as pedras de ferro Escondido que estás na escuridão Não passas de um trovão maldoso De que as cri...

TIVE TANTOS SONHOS ENTRE AS MINHAS MÃOS

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 Tive tantos sonhos entre as minhas mãos Mas perdi-os Outros guardei-os Mas não sei onde estão. Ando à sua procura. Talvez estejam escondidos Num velho tronco de oliveira Como os ninhos das poupas Talvez estejam no ventre da terra Como os ninhos das calhandras Talvez nas nuvens Talvez perdidos no mar. Talvez  eles próprios sonhem  Dentro na tua boca. Terei fazer depressa o caminho Para os apanhar Porque o mais certo É quererem voar Para o dorso de uma estrela cadente. HENRIQUE DÓRIA