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OUTROS MERGULHAM

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 Outros mergulham Nas águas do meio Eu sigo por terra Com as asas erguidas pela Margem esquerda. HENRIQUE DÓRIA

FRAGMENTOS

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1 O caos é o resultado de ter conduzido a minha vida para a ausência de mim. 2. Ao contrário do que dizia Alberto Magno, Deus é um acidente do mundo. Ele é ao mundo completamente dispensável e, também, uma catástrofe. 3. Que havia eu de fazer sem palavras quando as coisas me abandonam? 4. Somos ilhas antes do mar. 5. Balcãs, Líbia, Iraque, Síria, Ucrânia, Palestina, Líbano. Recordando Vitor Hugo, é "impossível não estar atento a esse grande trânsito de sombras". 6. Entre a coisas são tudo, as pessoas são nada, de Pascoaes, ou as pessoas são tudo, as coisas são nada, de Sérgio, sinto que a verdade está em ambas as afirmações. 7. Se a morte é uma humilhação a que todos temos de nos submeter, devemos fazê-lo, sorrindo.     HENRIQUE DÓRIA

DESEJO E LEMBRANÇA

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 Queria unir-se à lua melodiosa Dos seus lábios À Primavera dos seus seios À impureza das suas coxas Queria nos seus braços erguer o vento Para ser senhor de todos os lugares E de lugar nenhum Queria abdicar para com ela ser rei E conquistar para ser dominado Queria a noite e a maravilha E encostar a face ao pó dos seus pés Queria uma tempestade que os inquietasse E uma bonança para a sua viagem interior Queria beber  as suas palavras Para alcançar a pureza do silêncio E os seus sonhos Para conhecer a embriaguez da realidade Queria encontrá-la em qualquer crepúsculo Para ser então amante e irmão da aurora. HENRIQUE DÓRIA  

CORPO DIVIDIDO

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 Esta foi outrora a minha aldeia Hoje já não é a minha aldeia Fui eu que a roubei a mim mesmo Juntamente com outros que a roubaram. Olho-a na distância  Um espaço que se foi reduzindo Uma árvore de tronco ferido O desenho da minha infidelidade. Parti com inconsciência e leveza  Dispersa a minha solidão por tantos lugares  Pedaços do corpo deitado ao mar De um traidor condenado. Se já não é a minha aldeia Porque triste sorri a meu lado Porque ainda me ilumina por dentro A sua antiga candeia? HENRIQUE DÓRIA 

PRINCÍPIO DE UM LIVRO POR FAZER

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      Vão é o combate  que travo comigo mesmo porque sempre serei eu o vencido, e só  a lembrança do paraíso perdido me faz erguer de novo para continuar a lutar por uma nova derrota. Espero e não espero enquanto o meu futuro derrota sempre o meu passado. Em verdade, sou prisioneiro de um passado que perdi e já não posso ter e de um futuro que nunca terei. Permanece em mim a criança com os pés nus sobre a terra. Esse mundo de árvores, de poços e de pássaros, de bois e de erva, de videiras e de mosto, de flores e de estrume, de carros com rodas de metal rangendo sobre as ruas, de noras e infinitos passos em volta, de mãos e de frutos, de alegria na sombra permanente do perigo,  era, para mim, o paraíso perdido, embora um mundo de andrajos e doenças, de fugas noturnas e mortes precoces, de coisas que não passavam e onde nada se passava, de guerras longínquas mas sempre perto de nós, de discursos ridículos e febris, aerogramas e pobres mensagens de saudad...

A VIDA OLHA PARA A MORTE

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A vida olha para a morte E exclama com espanto Como foi possível nascer de ti Da luz distante de uma nebulosa Como aconteceu este parto Improvável Como puderam nascer de ti As bactérias e as algas As árvores e o seu canto As escamas da serpente E os olhos da águia A cauda do rato E as barbatanas da baleia E este ser absurdo  Que criou a música no horizonte da s cores E palavra no poço do silêncio Que tudo quer ter Que tudo quer saber E vive esquecido de que nasceu do nada E ao nada há de voltar. HENRIQUE DÓRIA 

O AVÔ E A LARANJEIRA

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Ao lado do grande portão  Ela dominava a entrada da casa E era o seu vigilante divino Carregando pequenos sóis  Serenos Sobre as folhas que se agitavam Suavemente  Como peixes verdes Num aquário. O avô era subjugado Por esses sóis fulminantes  E não permitia que os comessem Para não tornarem útil  A sua beleza.