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DENTRO DE MIM ESCOLHI

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Dentro de mim escolhi Ser árvore Porque ela ama como ninguém A mãe terra E o pai céu E sem nunca abandonar a terra Sobe para o pai Como a criatura mais divina Entre as mulheres Porque ela tem o conhecimento Do bem e do mal Porque nela o diabo se tornou serpente E inventou a morte Mas a ela eu subo para colher os frutos As dores  E a vida Tornando-me mais alto dentro de mim mesmo E mais prisioneiro do que amo. Dentro de mim escolhi Ser vento Porque só ele envolve Toda a terra Com amor e furor Porque só ele nos traz As nuvens E a amada água E de inclemente torna o sol Suave Porque num instante sobe aos montes Mais mágicos E percorre os vales com seu Hálito divino E ama as marés com seu  Coração Mal comportado E conversa com a árvore na encosta Como o príncipe E a princesa Da fábula E a toma nos seus vastos braços Como bem amada. Dentro de mim escolhei  Ser tudo Porque tudo é deus e deus É tudo E tudo é vã sabedoria E tudo sou eu E ninguém E tudo é a minha mão cansada De tud...

PRINCÍPIO DE UM LIVRO POR FAZER

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 Há momentos da minha vida em que não me reconheço a mim mesmo e outros em que me vejo com nitidez num passado a que não mais conseguirei regressar. Cedo me levaram da terra de meus pais para fazerem de mim "alguém", como dizia o meu avô. Diziam ser esta a razão da minha levada mas sei, agora, que a verdadeira razão do meu exílio, era outra, e terrível: a morte. Quase todos os dias de Primavera chegava a casa com as calças rotas por subir aos pinheiros para ver e tocar as bolas de penugem dos pequenos milhafres, dos corvos, das pegas e dos pica paus. No Verão lançava-me à água dos poços de rega e subia pelos alcatruzes para voltar a lançar-me ou ia nadar para a preza da Ribeira, sempre louco de liberdade e volúpia.  Deambulava pelos pinhais, esmagava nas mãos o rosmaninho para passar pelas faces o seu perfume, apanhava míscaros, deitava-me sobre o musgo a ver o sol coado entre os ramos dos pinheiros, ia para os ribeiros apanhar peixes com as mãos - as minha mãos eram, então, ...

AS MINHAS PALAVRAS

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As minhas palavras nasceram no deserto Entre a areia e as estrelas  Em tendas esvoaçantes  Que avançaram sobre as dunas Avançaram com o vento solar E a sede Até ao mar poente Fazendo mover as velas Suportando os fogos e as tempestades  Até à celebração das ilhas Em busca da pobre parte Do continente perdido  Do pólen do infinito e do nada Que sou eu mesmo. HENRIQUE DÓRIA 

TRIBUTO A PESSANHA com suite para violoncelo de Pinho Vargas em fundo

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 Ardei marés Dentro das almas E sob as cordas Amando os arcos Ardei chorai Sois aloés Nas noites calmas Sonhando as hordas Fugindo em barcos Que a vida trai Morte e revés Breve alegria Com dança e luz São espuma e mágoa São alcatruz Na manhã fria Perdendo a água Búzios seixinhos Trémulos astros Neve e caminhos Perdendo os rastos Na ventania Sob as arcadas Despedaçadas Barcos andai Celos chorai.

AVES

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Aves impuras voamos Entre o medo e a esperança. Muralhas de nuvens que atravessamos Sol cego que inunda o céu sem fim Poços de vazio profundo Onde tantas vezes caímos E, no entanto, continuamos Amando os navios nossos pares apaixonados Amando o azul do nosso império Amando o mar da nossa serenidade Com o som imenso dos seus búzios Amando a grande terra sem fronteiras A terra da nossa esperança Onde hão de repousar as nossas asas tão pequenas. 

SOMOS SERES DEDICADOS ÀS ERVAS

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Somos seres dedicados às ervas E aos bichos contadores do tempo Somos seres dedicados às chamas. Ah seres insensatos ardei Ardei sempre até ao incêndio final HENRIQUE DÓRIA

ATÉ À CHAMA

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 A vida e a morte encontram-se na boca Por isso falamos por isso cantamos  Mesmo sabendo que falar cantar São folhas de Outono  Ainda que cantem na Primavera. Falamos cantamos pelas casas Pelas ruas solitárias Pelo céu sem fundo Até ao suor da boca Até à chama dos rios Cortejando o verde Seduzindo as fontes Levando até ao sangue o vão Combate. HENRIQUE DÓRIA