Mensagens

ATÉ À CHAMA

Imagem
 A vida e a morte encontram-se na boca Por isso falamos por isso cantamos  Mesmo sabendo que falar cantar São folhas de Outono  Ainda que cantem na Primavera. Falamos cantamos pelas casas Pelas ruas solitárias Pelo céu sem fundo Até ao suor da boca Até à chama dos rios Cortejando o verde Seduzindo as fontes Levando até ao sangue o vão Combate. HENRIQUE DÓRIA 

INFINITAS SOLIDÕES

Imagem
Infinitas solidões vão da pele à alma A solidão do céu e a solidão do mar A solidão da árvore e a solidão da terra A solidão dos amantes E a solidão das noites prostitutas A solidão dos ladrões noturnos Roubando a solidão dos reis A solidão dos caminhos e a solidão das sombras A solidão da angústia e a solidão das horas A solidão dos tambores e a solidão das varandas  Na solidão do teu olhar de bruma A solidão da lua em volta da sua estrela Procurando a solidão do amor A solidão das campas e a solidão dos nomes A solidão do demónio e a solidão do lume A infinita solidão de Deus Na ainda mais infinita solidão do homem Frente à  impiedosa solidão do espelho. HENRIQUE DÓRIA

CINCO FRAGMENTOS PARA MIM MESMO

Imagem
1 Não sei como me conhecer, muito menos como me explicar. Tenho andado sempre sem rumo, sem saber para onde vou e por onde vou pois sou prisioneiro de mim mesmo porque assumi ser naqueles que amo. 2 A esperança é uma esmola que dou a mim mesmo sabendo que serei, para sempre, pobre. 3 Dizer que não meu é quanto escrevo é uma banalidade que, de tão verdadeira, chega a ser mentira. Devoro quanto recebo dos outros, mas sendo nutrido pelos outros eles transformam-se em mim mesmo numa real transfiguração. 4 Não há sepulturas de deuses e, no entanto, quantos deuses já estão mortos! Um incongruência dos homens, certamente porque hão de sobreviver a todos os deuses.  5 Eva sim, foi livre. Adão apenas se deixou conduzir como qualquer pusilânime que, além de tudo, não teve a coragem de levar o seu desafio até ao fim. HENRIQUE DÓRIA

ENTRE EU E EU MESMO

Imagem
Entre eu e eu mesmo Há uma dor Onde os outros se encontram Com a água da consolação E a abelha hesitando  De flor em flor Até à hora da laceração. HENRIQUE DÓRIA  

TEMPO DIVIDIDO

Imagem
Queria esquecer os meus amores Os que não tive e os que não terei Todos janelas abertas para o mar Todos chamas cadentes A iluminar o nada. Queria lembrar-me do meu amor presente Esse que está tão perto e tão longe O meu amor de águas emendadas Sempre a chamar-me e a desejar-me Implorando que eu esteja sempre ali Que eu seja o seu candeeiro suspenso Iluminando-o para não tropeçar E o seu leito inflamado Onde eu remo para naufragar.  HENRIQUE DÓRIA

APÓS UM SONHO

Imagem
Ah minha aldeia de silêncios E pinhais de vinhas e ladeiras Enlameadas  de uvas de infinito Da infinita paciência dos bois Erguendo águas tristes e cantares Presos entre milhos e beirais Ah minha aldeia que não voltas mais. Ah minha aldeia entre a esmeralda E o mar onde hei de estar Entre o barro bêbado e as sombras Da noite dos amados mortos Só sem luz nem rosa Em busca do nada e de nenhuma coisa.    HENRIQUE DÓRIA

RASGO O ROSTO DA TERRA

Imagem
Rasgo o rosto da terra Coloco-lhe o estrume das aves Que hão de alimentar os homens  As outras voam com as crianças  Rumo ao mundo E aos seus mistérios  Rumo ao deslumbramento  Rumo à fonte da sua paixão. Coloco as videiras com as raízes frágeis  Libertas do pó  Profundas para irem ao encontro  Da embriaguez  Dos corações felizes. Fui-lhes infiel um dia  No meu tempo dividido  Mas agora e las  são a minha  nova inocência  E eu junco levado pelo tempo  Regresso para as plantar e amar. HENRIQUE DÓRIA