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SOMOS UM CARACOL NOS CORNOS

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Somos um caracol nos cornos  De Deus Um rasto de ranho O seu esqueleto exterior Os seus escravos pesados O seu sol para si. Convivemos com o nada Infinitamente mortos E no entanto Somos a alma  de uma labareda Onde à noite vão beber Os astros mudos As estrelas cadentes               E esse Deus em sua queda infinita. HENRIQUE DÓRIA

FRAGMENTO

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Não acredito em Deus porque acreditar em Deus é imoral, é ter como pai um ente que vota os seus filhos ao sofrimento e à morte. 

DO ADMIRÁVEL INCÊNDIO

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Do admirável incêndio Sinto ainda a chama Alheia aos esgares da ânfora Às batalhas perdidas Nas montanhas do céu Ao vento devorando a melodia. Há ainda uma margem larga Para a lembrança do corpo Para a impaciência da língua Há ainda um espelho que me repete Uma lua no meu peito de criança Tão cheio de nuvens brancas e vermelhas Que não se querem render Às lanças  de louca névoa amarela.   

POEMA XI

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O sol acendeu-se As larvas lavraram-se Porque tudo faz sentido Aos olhos de Deus Aos olhos ímpios da morte Porque  tudo está condenado As montanhas estão condenadas Os abismos estão condenados A alegria está condenada Com as amarguras grandes e pequenas Os amores côncavos e convexos E o colo da lua Mas o sonho é também a tua condenação Vertigem e vida Antes de renasceres na relva Porque nunca perdeste a porta Nunca perdeste a esperança De regressares a ti mesmo No nevoeiro que não se dissipa Onde está a estrela? Candeias azuis Candeias amarelas De azeite que não se dissolve Sim és ilha que se desuniu Passado pesado passado Tão cheio da tua idade Tão cheio de vento Do ventilador Asfixia-te  De tanto querer Torna pesadas as palavras Leves Para quê então seres Sítio dos oito caminhos Se tudo é ilusão Sinais num fio sem fim? HENRIQUE DÓRIA

FRASES BRANCAS NO INVERNO

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Frases brancas no Inverno Ao longe Parecem trazer o sol Mas têm submersas, eu sei, Sementes de breu Uma música noturna no fundo Das águas. Refugiarmo-nos no álcool Uma inutilidade - nunca nos poderemos libertar Do corpo degradado Nem mesmo degradando ainda mais O corpo Na luz do ópio. Que nos resta então Para salvarmos a vida Senão escrever frases brancas No céu Frases brancas nas árvores Frases brancas nas cristas Do montes Nas cristas dos galos Frases brancas  até nas areias Do deserto Para nelas bebermos A inexplicável beleza. HENRIQUE DÓRIA

BEBO NA FONTE DAS ALMAS

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Bebo na fonte das almas Dos amados mortos São a minha luz Na sua noite. Ferem-me de saudade as suas palavras Amassadas em amor O seu barro a sua enxada  e a sua videira As laranjas fulgurantes do Verão Chaves de entrada na sua casa Beleza superior ao sabor. Perdi-os sem nunca os perder Ouço os seus passos à minha volta Eles ocupam o universo inteiro São as raízes e a música das minhas estrelas. HENRIQUE DÓRIA

NÃO NASCI SÓ

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1. Não nasci só Mas entre mãos cheias de sangue Segurando dor e amor. 2. Bebi o vinho quente do sexo Sete dias por semana. Bela era a boca da infusa. 3. Tinha apenas o corpo E o vento E o rosto roçando na matéria. 4. Hoje sou uma religião solitária Sem fé Com esperança. 5. Haverei de morrer só Coalhado o sangue que crepitava Fechada a janela do meu coração aberto. 6. Quero apenas uma videira Que saiba a murmúrios e a mel E a suspiros dos lábios. HENRIQUE DÓRIA