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PORQUE O MAR É UM DESERTO

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 Porque o mar é um deserto de água E o deserto um mar de areia Em ambos são imensas a estrelas E imenso é o espelho da nossa solidão.  HENRIQUE DÓRIA

DIÁRIO INTERMITENTE

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 Abro, ao acaso, um capítulo do excelente Tolstoi ou Dostoievski , de George Steiner. Salto daí para Berenice , de Racine e, depois, para Anna Akmhatova, Só o Sangue Cheira a Sangue. Recorda Steiner que, nos dramas de Dostoievski, o centro é sempre um assassinato, porque o assassinato, para Dostoievski, é o momento mais dramático que pode viver um Homem. Porém, de modo diferente do genial russo, penso que o cume do drama se alcança não com o assassinato mas com o suicídio. O assassinato pode ser um momento de prazer e, até, de alegria. O suicídio é sempre o cume do desespero humano. É no suicídio que se encontram o maior desespero e a maior coragem, portanto, o mais profundo drama.  Que abismos não percorreu uma alma dentro de si mesma até atingir a inevitabilidade do seu próprio aniquilamento? Quanta força interior não é necessária para que uma alma tenha coragem de dizer a si mesma não mais, alma, não mais!

O NOVO LIVRO DO DESASSOSSEGO (II).

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A cena passa-se no dia seguinte. Conduzidos por Beatriz, entram em fila no gabinete presidencial o Grande Rabino de Jerusalém, o Papa, o Patriarca de Constantinopla, o Grande Mufti de Meca, o Rei das Moscas e o Pateta.  O Grande Rabino traz uma boina negra com uma risca dourada em volta; uma casaca também negra, decorada, ao meio, com flores de acácia douradas, que se inicia, como uma árvore, junto ao umbigo e se vai alargando até aos ombros; calças, meias e sapatos negros, com uma das perneiras das calças arregaçada até junto ao joelho. O rosto ostenta um riso trocista sobre a longa barba branca. A seguir, vem o Papa, com uma casula vermelha, palio branco com cruzes vermelhas, meias brancas, sapatos vermelhos; traz preso à cintura a imagem tosca da virgem negra esculpida em lava vulcânica, de cerca de cinquenta centímetros de altura, que o obriga a inclinar-se e apoiar-se numa cruz de prata, fina, cerca da meio metro mais alta do que ele, com um Cristo muito magro pregado numa...

DAMO-NOS BEM

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Damo-nos bem - conversamos com ternura A minha sombra e lua No espelho da água Enquanto coaxam as rãs do cio E ao tanque vêm beber a vida A rola a cabra a égua Com seus corações vibrantes. HENRIQUE DÓRIA

CREPITA NO MEU CÉREBRO O SANGUE

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Crepita no meu cérebro o sangue O meu cântaro de barro sedento Busca a boca cheia de água Porque o meu coração tem raízes Fundas na minha pele O meu coração excitado O meu coração solitário Atrás da matilha Atrás do cio Atrás da sua louca razão de ser- Cão uivando a todas as luas Cão correndo sobre as águas À procura de uma só morada Cão que ainda se interroga Qual destes sou eu Este ou o que ainda procura Sonhar-se? HENRIQUE DÓRIA

TUDO PERMANECE E, NO ENTANTO

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Tudo permanece e, no entanto Tudo mudou- Eu já não sou eu Eu nunca fui eu Mas o meu rosto quebrado No espelho Entre duas paisagens. Não me reconheço Nestes fragmentos de água. Ainda que recorde O antigo desejo Como um sonho esquecido Nada me é indiferente. Embora tudo seja diferente Eu permaneço extasiado Com o que poderia ter E só com o que perdi Árvore descarnada Sob um céu estrangeiro. É tarde Curvam-se ao tempo os rios E eu curvo-me com os rios Mas amando ainda u m terno e húmido Poente.

NLD

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  (cena 2 continuação) Furioso, o Presidente dirige-se para a porta que separa o seu gabinete  do gabinete  da secretária, e grita: PRESIDENTE- Menina, ligue-me para Deus Pai! BEATRIZ- Ai presidente mais querido do mundo, tanta fúria, tanta violência! A sua escrava obedece já. A secretária liga para Deus Pai. Este atende com serenidade e bonomia. Vê-se a sua imagem num écran. Tem dois olhos normais, mas também um grande olho de falcão no meio da testa. DEUS PAI –Senhor Presidente, quanta alegria no seu telefonema. O que pretende deste Pai compassivo? PRESIDENTE- Deus Pai, vós bens sabeis como vos venero, vos obedeço, vos louvo, etc. Preciso da vinda da Majestade à Casa Negra. Pode ser amanhã, quando Hemera lançar os seus dedos de púrpura? DEUS PAI-   Não me esqueço quanto me tem venerado, obedecido, louvado, etc. o poderoso Presidente. Por isso estarei na sua casa, amanhã, quando a Hemera se juntar a Nix. Estou a construir um novo míssil hipersónico com...