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POEMA X (extrato)

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  POEMA X (extrato) O sonho matéria do corpo Cabeça de criança animal que corre Abre-se para a eternidade Mas aqui é o império das aves O instante entre O Nada e o Nada. Canta ave do Nada Colibri do instante Segura a lua com as tuas pupilas E o sol com os teus lábios E canta. Anjos demónios Folhas voando ensandecidas. A pá vai revolvendo a terra Vai abrindo valas Vai tapando as entranhas O esmeril vai afiando A lâmina Que irá cortar as asas dos anjos E tudo é insignificante menos a lâmina A pá A mó da água Que tudo move em direção à morte Que tudo mói. Relâmpagos antecipam o estrondo Das nuvens contra as nuvens Tudo túneis Tudo ecos do céu Sem fundo. Águas brancas emendam-se Com águas negras O mar pensávamos que era o mar Miragem nevoeiro ao longe Derrubando velas Ondas ondas ondas Consomem o corpo Tudo é menor dentro do espaço Não há tempo Sequer para a dor Para a linguagem Para a mulher que se ama. ...

A MINHA VIDA

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A minha vida não é só da minha vida É também dos que sofrem a pedra E as silvas da humilhação Desses que nem sei que existem Que são vento - novo ou velho A quem a neve cortou os lábios Mas ainda são capazes de sorrir Entre dois sofrimentos- Desses que vivendo preferiam Estar mortos A beber o leite negro do meio dia Desses que caminham na própria sombra Num qualquer lugar De onde até as árvores partiram Desses que habitam a caverna da dor Sem nunca conhecerem a ave da primavera. Dos seus corações cheios de gritos De sirenes De portas fechadas A minha vida com eles partilha  O fogo - e o grande frio . HENRIQUE DÓRIA

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  A juventude passou ao meu lado como uma nuvem estranha, uma ilusão a cada dia perdida. Desde cedo me comecei a entregar aos outros e a nada. Sempre fui contradição pura: desejo e abdicação, vento e nó numa corda, sonho e pés nus sobre a terra. Cedo cheguei ao tempo em já não poderia ser apenas eu. Tarde demais agora para regressar ao mar da liberdade onde nunca estive. Perdido que foi o tempo das cerejas, resta a nostalgia e o cansaço. Sinto cansaço de mim mesmo. Tudo em mim não é mais do que uma propagação de círculos como quando sobre um lago se lança uma pedra, círculos que morrem ainda antes que a pedra alcance a água. Tudo em mim é emoção e, por isso, me sinto estrangeiro neste mundo explicado. Se a juventude é uma virtude viril, muito mais doloroso é nunca a ter possuído do que perdê-la Se foi um mistério que se dissipou em mim  sem nunca chegar a sê-lo, resta-me dela a serenidade que ela não dá e um sorriso de perdão pelas loucuras que não tive ou pela coragem que me ...

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 Nada nos deuses é oferenda para os homens. A vida que lhes deram tem o preço da morte, a alegria o preço da tristeza, o riso o preço das lágrimas. Trocam a fortuna pela desgraça, as mansões dos ricos pelos casebres dos pobres, a glória pela humilhação, o nascimento ao amanhecer pela morte ao crepúsculo. Jamais os ricos ou os pobres compreenderão a vontade dos deuses, porque são tão efémeras as suas moradas, ou porque tantas vezes aqueles se atormentam e sofrem e estes se alegram e têm momentos de felicidade. Jamais os deuses hão de compreender  a fome e sede de amor dos homens que são a sua grandeza face ao orgulho divino. De tão grandiosos, os deuses estarão sempre distantes dos homens, tal como as estrelas, e é essa distância que os faz incapazes de amar. Eles, os deuses, caminham serenos e altivos sobre a roda do tempo, sem compreenderem que, como os homens, não irão resistir à sua invisível mó.  

VIVEMOS NO FUNDO DA CAVERNA

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Vivemos no fundo da caverna Mas a nossa sombra persiste Na luz da Primavera Possivelmente leve Possivelmente livre Possivelmente forte para nos libertar. Vivemos num mundo onde é obscura a aurora Mas a nossa sombra está  No antimundo Uma sombra agitada Que sonha Um lugar em forma De coração Coração imortal Uma sarça ardente Que não se consome Mesmo que a devoremos. Vivemos na casa da loucura Com reis negligentes Brincando como crianças coxas Trocando o bem pelo mal Debaixo de nuvens maduras Reis cruelmente coroados antes de abdicarem. HENRIQUE DÓRIA

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  Percorro o estreito caminho entre dois abismos: a palavra e o silêncio.  Temo a palavra porque  mostrará sempre a minha imperfeição. O silêncio atrai-me porque, através dele, eu mergulho na minha frágil alma. A palavra aproxima-me da escravidão, o silêncio aproxima-me da morte. Por isso caminho sonhando, fazendo, em silêncio, esvair-se das minhas mãos inquietas as palavras. Elas serão sempre a minha rosa. Elas serão sempre o meu pó.  

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  O cristianismo faz dos homens simples funcionários de Deus, e dos religiosos os seus superiores hierárquicos. Nenhuma diferença entre o imperador romano que se fazia venerar como deus e o Deus dos cristãos que se faz venerar como imperador. A vida e a morte estavam nas mãos de ambos. A salvação, no cristianismo mais profundo, o de Calvino ou de Pascal, é um ato arbitrário de Deus no dia do juízo final, como a vida e a morte eram um ato arbitrário do imperador no Coliseu de Roma. O que nos diz Agostinho de Hipona é que não são os nossos atos que nos salvam, mas a insondável graça de Deus. Agostinho, o santo, não logrou compreender a maldade dessa crença. Por que momentos terríveis estaria ele a passar para que essa insoldável maldade fosse a maior manifestação do poder de Deus por ele tão exaltada? Roma estava a desmoronar-se. O imperador já não detinha o poder de decidir da vida ou da morte dos homens. Os homens que assaltavam Roma eram apenas bárbaros e homens que colocavam o im...