Não há sobre a relva O improvável milagre Apenas o simples esplendor Do verde Da flor da ansiedade. Nada há que te devolva Os róseos dedos do amor Que não tiveste Nem sequer a chama fria Do lume que perdeste. Recordar que sonhaste Que sentiste sede e fome E não comeste Enquanto em ti rugia o leão da ausência E te ignorava o Deus da indulgência Não te devolve o tempo A ave da vida A imortalidade breve. Vives em possibilidade Precisas de amar até à derradeira neve. HENRIQUE DÓRIA
1- Encontro em algumas palavras belos corpos que gostaria de despir, noutras pedacinhos de ossos que gostaria de ressuscitar, noutras aves, pedras e sementes - de amor e de ódio. Mas algum dia encontrarei aquelas em que me poderei incendiar? 2- Na vinha cortam-se as derradeiras uvas. No sótão, as maçãs guardadas comem-nos com o seu perfume. Da chaminé sai a primeira melancolia. Tudo sinais do que te trará o Outono? 3- Enquanto jantas, as televisões trazem-te muitos pedaços de morte e alguns pedaços de vida, incêndios, paredes que caiem e algumas que se levantam, fronteiras violadas e a felicidade vendida em cremes de beleza. Mais tarde, virá ter contigo a dourada lua navegante trazendo-te os seus sonhos? 4- Na tua mão direita há uma nascente e um rio principia. No teu coração uma luta em que terminarás ferido na coxa. É a mesma luta que travas com as palavras e os homens? 5- Amar como a ave que passa ou como a árvore com o seu constante amor da terra, não é tudo o mesmo amor...
Entre a ubiquidade de Deus Vive uma pomba Com o seu coração dividido E a artéria aorta ligada Ao cântico dos cânticos E a pomba beija o lado direito De Deus com a sua língua Santificada e dadora de vida Para que do seu ventre nasçam peixes E um belo homem louro Com uma coroa de espinhos Preparando o triunfo do sangue E o belo homem louro é um nardo Ardente nas coxas da amada Um homem multiplicador de pães Caminhante fazendo o seu caminho Sobre a superfície das águas Lado a lado com o basilisco Numa mão levando a espada Noutra o vermelho hibisco -Porque ele sabe que o amor e a beleza Estão destinados à morte- Caminhando também pelas montanhas Onde se prolongam as bem aventuranças O sal e as palavras. Pai, porque fizeste do belo homem louro O. branco cordeiro do sacrifício ? Já não serves para nada Pai És um sapato roto Esquecido numa vereda Um pó negro de trigo Entre as pedras de ferro Escondido que estás na escuridão Não passas de um trovão maldoso De que as cri...