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 Nada nos deuses é oferenda para os homens. A vida que lhes deram tem o preço da morte, a alegria o preço da tristeza, o riso o preço das lágrimas. Trocam a fortuna pela desgraça, as mansões dos ricos pelos casebres dos pobres, a glória pela humilhação, o nascimento ao amanhecer pela morte ao crepúsculo. Jamais os ricos ou os pobres compreenderão a vontade dos deuses, porque são tão efémeras as suas moradas, ou porque tantas vezes aqueles se atormentam e sofrem e estes se alegram e têm momentos de felicidade. Jamais os deuses hão de compreender  a fome e sede de amor dos homens que são a sua grandeza face ao orgulho divino. De tão grandiosos, os deuses estarão sempre distantes dos homens, tal como as estrelas, e é essa distância que os faz incapazes de amar. Eles, os deuses, caminham serenos e altivos sobre a roda do tempo, sem compreenderem que, como os homens, não irão resistir à sua invisível mó.  

VIVEMOS NO FUNDO DA CAVERNA

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Vivemos no fundo da caverna Mas a nossa sombra persiste Na luz da Primavera Possivelmente leve Possivelmente livre Possivelmente forte para nos libertar. Vivemos num mundo onde é obscura a aurora Mas a nossa sombra está  No antimundo Uma sombra agitada Que sonha Um lugar em forma De coração Coração imortal Uma sarça ardente Que não se consome Mesmo que a devoremos. Vivemos na casa da loucura Com reis negligentes Brincando como crianças coxas Trocando o bem pelo mal Debaixo de nuvens maduras Reis cruelmente coroados antes de abdicarem. HENRIQUE DÓRIA

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  Percorro o estreito caminho entre dois abismos: a palavra e o silêncio.  Temo a palavra porque  mostrará sempre a minha imperfeição. O silêncio atrai-me porque, através dele, eu mergulho na minha frágil alma. A palavra aproxima-me da escravidão, o silêncio aproxima-me da morte. Por isso caminho sonhando, fazendo, em silêncio, esvair-se das minhas mãos inquietas as palavras. Elas serão sempre a minha rosa. Elas serão sempre o meu pó.  

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  O cristianismo faz dos homens simples funcionários de Deus, e dos religiosos os seus superiores hierárquicos. Nenhuma diferença entre o imperador romano que se fazia venerar como deus e o Deus dos cristãos que se faz venerar como imperador. A vida e a morte estavam nas mãos de ambos. A salvação, no cristianismo mais profundo, o de Calvino ou de Pascal, é um ato arbitrário de Deus no dia do juízo final, como a vida e a morte eram um ato arbitrário do imperador no Coliseu de Roma. O que nos diz Agostinho de Hipona é que não são os nossos atos que nos salvam, mas a insondável graça de Deus. Agostinho, o santo, não logrou compreender a maldade dessa crença. Por que momentos terríveis estaria ele a passar para que essa insoldável maldade fosse a maior manifestação do poder de Deus por ele tão exaltada? Roma estava a desmoronar-se. O imperador já não detinha o poder de decidir da vida ou da morte dos homens. Os homens que assaltavam Roma eram apenas bárbaros e homens que colocavam o im...

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 Sonho, sonho sempre. Desejo, desejo sempre. Mas o meu sonho e o meu desejo mostram-me sempre a minha própria incompletude.

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Vivemos em transformação, e essa transformação é a causa da nossa angústia porque somos e a cada instante deixamos de ser. Atravessamos o céu como nuvens flutuantes que os nossos sonhos criam com os sonhos dos outros.

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 Como conviver neste palco do teatro do absurdo que é o mundo? A arrogância e a avidez dos poderosos domina-nos mesmo que nos revoltemos. O sofrimento dos miseráveis e dos desgraçados faz-nos sofrer também por eles e pela nossa impotência para o transformar. O amor torna-nos escravos de quem amamos, mas a sua ausência afunda-nos na angústia do vazio. O saber dá-nos o orgulho de uma falsa superioridade, mas a ignorância gera em nós o sentimento de que algo nos falta para nos conhecermos a nós e ao mundo. A consciência de tudo isto retira-nos a serenidade com que devemos aguardar o face a face com a morte.