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O POEMA É A CHAVE

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 O poema é a chave que te abre Porque tu és uma porta  Para a casa do mundo  Chave da alma Luminosa chave do mistério  Da vida e da morte  Da alegria e da dor Chave do sangue verde  Do amor  Da noite azul e do esplendor. Arde poema arde Porque mesmo ignorada A tua hora permanece E a tua luz não chegará tarde. HENRIQUE DÓRIA 

RENOVEI

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 Renovei a casa de meus pais            (Apenas o primeiro andar O rés do chão permaneceu tranquilo  Para a sua velhice) Quartos brancos para que neles Se sinta confortável a neve  Quando cair Portas cinzentas por onde saí e entrei Para os ventos da vida Um banheiro com azulejos verdes e brancos Outro com azulejos brancos e negros Porque aí  Como em nenhum outro lugar Somos no princípio e no fim Palhaços alegres e palhaços tristes Janelas de vidros duplos Protegendo bem a minha solidão. Terminadas as obras Senti-me feliz Porque tudo estava limpo  E confortável para a morte. HENRIQUE DÓRIA 

A TERRA QUE NOS DÁ

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 A terra que nos dá  As flores e os frutos É a mesma Que nos devora as mãos. HENRIQUE DÓRIA 

TERRA

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  Terra de caules frágeis  Caules duros  Mas todos dando  O seu melhor . HENRIQUE DÓRIA 

QUANDO DEUS CRIOU O TEMPO

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 Quando Deus criou o tempo Pensou também  na morte Que é a verdade do tempo Ou apenas no prazer Da sua criação  Ignorando que o tempo iria  Crucificar a rosa   Violar os rios e as fontes  Tornar em pó a terra abençoada  Desfazer as  nuvens e o azul Os bichos grandes e pequenos O ardiloso homem e os seus oito olhos Até tornar em nada o amado sol  E as férteis nebulosas? HENRIQUE DÓRIA 

OUTRORA EU SONHAVA MUITO

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 Outrora eu sonhava muito Sonhava dobrar as palavras Como os reis dobram os seus súbditos  Ou os loucos dobram a realidade Ou os camponeses dobram as suas videiras. Dava às coisas nomes ignorados Para despertar nos homens a arte da magia E a sedução do pecado original. Eu era uma criança voraz A quem feria a rosa E um adulto perdido nas suas sombras  A quem angustiava o coração aceso  Dentro de uma alma tumultuada. Hoje  só corro e grito  Dentro dos meus sonhos Enquanto o vento fustiga O meu corpo doloroso Para entregar corpo e sonhos Aos lobos esfaimados. HENRIQUE DÓRIA 

PALAVRAS DE DOMINGO

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Tento vestir palavras de domingo Não me servem  Demasiado estreitas Para o meu corpo poder Gritar Para um tempo De elementos em fúria. Nesta terra indigente As rosas os perfumes os sorrisos As carícias as palavras de domingo Tenho de as aprisionar Nas sombras da minha boca Para lançar aos vivos O meu grito nesta tarde Ensanguentada Para não ser eu só A minha muda sombra HENRIQUE DÓRIA